Caixa de texto: Missivas

Valquíria Gesqui Malagoli

Literatura, música, artes plásticas, saraus, oficinas e exposições

Missivas é um livro de poesia escrito por Valquíria Gesqui Malagoli e Renata Iacovino. O projeto, em si, já é ousado por sua proposta, uma vez ser pouco comum vermos parcerias neste segmento.

A idéia nasceu de um exercício formal das escritoras, cada uma dentro de sua peculiaridade literária e influências, buscando captar possibilidades outras de criação, por meio de um intercâmbio de estilos.

Ambas passeiam por modalidades diversas da poesia clássica e não deixam de apresentar, também, a fluência dos versos modernos, livres, deflagrando um enredo carregado de lirismo e de influências de conhecidos poetas da literatura brasileira e portuguesa.

O livro é dividido em seis partes, muito embora prevaleça uma linguagem uníssona. Aliás, o que distingue o trabalho, além da união de diferentes vozes, é que, em momento algum, ocorre a identificação de quem escreveu o quê. Há parcerias e há poesias criadas individualmente, no entanto, o caráter que sobressai é sempre o da unicidade.

Se olharmos para inúmeros livros que vêm sendo editados, trazendo à baila a troca de correspondências entre grandes escritores de várias épocas – o que constitui um precioso resgate histórico e literário – vislumbraremos, nestas cartas em forma de versos, a arrojada proposta à qual se dispõem.

Assim como acontece na música, em que as parcerias são constantes e comuns, na escrita literária isto se mostra possível e aponta para uma desmistificação de que a criação poética só se dá de forma solitária.

Almas gêmeas

 

Dois espíritos puros e de intenção santa,

algemados à matéria e ao limite humano,

somos preciosa bagagem sacrossanta

que a pequenez do mundo, transporta em arcano.

 

Nosso desejo inocente a todos espanta...

e a vontade que sinto, debaixo do pano.

Só de ouvir-te, minh’alma se despe e levanta,

mas, prudente, o meu corpo previne: “é um engano!”

 

Por isso, hoje, ao buscar vida em ti, eis que morro,

ao som da tua voz suplicando meu colo –

que tortura! Definho, gemendo que te amo!

 

Numa hora eu fujo do teu passo, noutra eu corro

atrás de ti, buscando os teus sinais, no solo.

Contigo, ali, me planto, e renasce... um só ramo!