Caixa de texto: O presente de grego

Valquíria Gesqui Malagoli

Literatura, música, artes plásticas, saraus, oficinas e exposições

“O presente de grego” é a aventura investigativa para a qual foram solicitados os préstimos de dois experientes profissionais, Pingo no “i” e Precisão Milimétrica.

Após o caso do roubo do guarda-chuva, a dupla, agora, investiga o seqüestro de outro bem, a saber, um pé de meia, precioso para certa senhorita, ou, como ela prefere ser chamada: a “dona da meia”.

Esta personagem, aliás (vítima ou vilã), – porque aqui todos são suspeitos até que se prove o contrário – acabará por desencadear uma disputa por seu amor entre os dois inseparáveis detetives, o que, de certa forma, vai mudando o rumo das coisas.

Pingo no “i” é o mais velho e também o líder. Inteligente, metódico e perfeccionista, conduz os trabalhos com firmeza, driblando seu prestativo, porém, menos astuto, colega de profissão. Com o mesmo rigor, zela pelo uso correto das palavras e expressões de nosso idioma, não hesitando em corrigir, a todo momento, seu parceiro. Vai, portanto, à medida que colhe pistas, colocando tudo em seu devido lugar, ou seja, os pingos nos “is”, mas também pontos, vírgulas, reticências...

Precisão Milimétrica, por sua vez, faz, igualmente, juz a seu codinome. Embora aparente alguma displicência, dedica-se milimetricamente à solução de cada caso, conservando o bom humor apesar da rigidez de seu mestre e ídolo, Pingo, de quem orgulha-se em imitar os passos.

A história se passa numa pequena cidade brasileira, mais especificamente na casa de cujo local sumiu o objeto que procuram, ou seja, a casa da “senhorita”. As pistas, porém, adiante, nos levarão ao Museu do Louvre, em Paris, onde finalmente, aparecerá o “culpado”.

Talvez nem tanta culpa tenha o dito cujo, pelo fato da história juntar elementos do mundo real e de ficção, o que faz a trama tomar um rumo curioso...

Capa da 2ª edição

Capa da 1ª edição

Ao contrário do que acontece com quase toda história, esta aqui não começa com “era uma vez”, por motivos óbvios...

Primeiro: exatamente para não ser tão óbvia, já que o que queremos e, decerto, traremos à tona é uma aventura originalíssima.

Segundo: porque em “era uma vez” não há “i”, nem qualquer outra letrinha pra acentuar, o que descontentaria o primeiro personagem que dá título a ela... Pingo no “i”.

Terceiro: a história está acontecendo em tempo real. Portanto, não ERA, mas sim... É uma vez – esta vez!

Quarto, último e também importante: o outro personagem central (o que nos leva, excepcionalmente, a um centro com mais de um ponto), Precisão Milimétrica. Esse meticuloso agente jamais participaria de uma investigação, cujo início já fosse tão impreciso quanto “era uma vez”! Afinal, “era uma vez” é algo muito subjetivo, fantasioso.

– Hum... hum...

Ih, começaram as interrupções...

– Anote aí, Precisão. O provável criminoso evacuou o local.

– É... Pingo, desculpe... sei que você costuma ser bom com as palavras, mas... aqui é uma cozinha.

– Sim, sagaz e atento companheiro. Trata-se claramente de uma cozinha. O que, precisamente, Precisão, você quer dizer com essa sua observação?

– É que isso aí que você acabou de dizer a gente faz no banheiro. aí que passou pela sua cabecinha é o verbo intransitivo, que significa fazer algo muito diferente e malcheiroso.

– Ahhh...

– Precisão, Precisão... Eu disse “evacuar”, o verbo transitivo, que, por sua vez, quer dizer: ABANDONAR o local. Isso aí que passou pela sua cabecinha é o verbo intransitivo, que significa fazer algo muito diferente e malcheiroso.

– Ahhh...

– Anote tudo aí no seu papelzinho. Há outra possibilidade: podemos ter aqui à nossa frente um caso de envenenamento! O bicho pode ter sido envenenado para dificultar nosso trabalho.

– Mas quem o envenenaria contra nós?

– Quando você vai aprender a interpretar corretamente o que eu digo, Precisão?

– Quando você falar claro?!?

– Mais claro impossível, Precisão!!!

Pingo impacienta-se, ofendido, e retoma:

– Sou a clareza em pessoa! Tornar as coisas claras é meu lema! Eu não falava de envenenar no sentido de falar mal, difamar; eu falava de envenenamento por substância química, falava de peçonha...

– Mas ele não é uma pessoa, é um gato! Você não pode exigir que ele se comporte ou raciocine como um homem...

– Eu não disse PESSOA; eu disse PEÇONHA!