Caixa de texto: Testamento

Valquíria Gesqui Malagoli

Literatura, música, artes plásticas, saraus, oficinas e exposições

Reconhecida por sua verve no trato com a palavra escrita, seja em prosa ou poesia, a escritora, desde o título, já sugere que, em seu conteúdo, o livro traz o maior legado que um escritor e poeta pode deixar às gerações futuras e aos seus herdeiros. “Que dívida eterna, porém, terei para com os olhos sob cujas vistas este livro encontrar graças, se, ao invés de o verem como arauto da Tristeza, enxergarem que há, nas entrelinhas, a intenção desta que agora se confessa de levar o ledor ao colo de outra musa... uma inominável força mobilizadora.”.

De alma exposta, a poetisa partilha sua moeda, e, desta maneira, adiciona, dentre outros elementos, suor, riso e pranto “à secura da impressão”. Transforma, pois, a inércia do papel em objeto de fruição; a palidez vai tomando cores e formas.

A habilidade da autora com a construção clássica da poesia a direcionou para a criação, em boa parte deste material, de sonetos. E as poesias dialogam com o projeto gráfico composto especialmente para este Testamento, por  Nilton Prado, responsável pela criação da capa e das ilustrações que completam, sempre, a idéia exposta por Valquíria, em seus versos. Sintonia fina entre duas modalidades artísticas.

Do nada

 

Neste momento até então senil

só  escrevo o que a mão desenha:

uns versos de azul anil

na folha, agora, prenha.

 

Se eu tivesse tinta vermelha

faria disto de que me farto

(hora a qual nada se assemelha)

uma pintura da hora do parto.

 

 

Mea culpa

 

Os meus versinhos medidos:

uns curtinhos, uns compridos

são mui livres e felizes,

não só cópias de matrizes.

 

Ai, com que dor sigo a ver

tanta gente os maldizer.

Que maldade e preconceito!

São sem mácula ou defeito.

 

Se alguém estiver errado,

se é preciso achar culpado...

cá estou! Toda a culpa é minha,

que rabisco essa quadrinha.

 

Mea culpa! Que os chacais

deixem meus bebês em paz.

– Vão queridos, gritem alto

que ser verso é ser arauto!

 

Se os lapido, os agasalho;

só por isso menos valho?

É pecado a forma amar

e uma linha lapidar?

 

Dar de comer a um faminto,

ou salvar num labirinto

quem, perdido, desanime

é, por acaso, algum crime?

 

Entalhar rosto em madeira,

transformar o ouro em pulseira,

tirar a seda do inseto

que a faz, pergunto, é abjeto?

 

Então, não é vergonhoso

e nem tampouco jocoso

modelar o que se escreve,

quando se julgar que deve!

 

Crer num verso é amá-lo tanto –

seja um hino ou acalanto –

quanto a um filho, e compreender

que o que vive há de crescer.